Marcos da Silva Ramos[1]
INTRODUÇÃO
Este Artigo tem como objetivo discutir sobre a equiparação evolutiva
originante entre a Ciência Linguística e a Língua Portuguesa, dentro do âmbito
da Norma padrão-culta, fazendo com que o desenvolvimento do entendimento,
aboque dentro dos contextos desde o ensino pré-universitário até o
pós-universitário, aonde se pauta na concepção de linguagem (linguística) como
forma de interação e sua relação com o ensino gramatical em sala de aula.
Procura entrelaçar a gramática à linguística nessa perspectiva porque se crê
ser essencial para que o ensino de língua aconteça de forma dinâmica e produtiva,
crendo-se que, pela possibilidade do desenvolvimento das habilidades de
leitura, de produção e de análise linguística de texto, veem-se proficientes e
capazes de ampliarem a capacidade comunicativa. Finalmente, corroborar-se-á com
a busca pelo desenvolvimento prático que venha possibilitar a abordagem tanto
em sala de aula e principalmente pelas habilidades linguísticas por meio da
prática gramatical.
I OLUCUBRAÇÃO
GERAL: PARÂMETROS DESENVOLVIDOS PRÁTICOS
O homem procura dominar o mundo em que vive.
Uma forma de ele ter esse domínio é o conhecimento. Esse é um dos motivos pelos quais ele
procura explicar tudo o que existe.
A Linguagem[2] é
uma dessas coisas. Ao procurar explicar a linguagem, o homem está procurando
explicar algo que lhe é próprio e que é parte necessária de seu mundo e da sua
convivência com os outros seres humanos.
Por que falamos? Para que falamos? Como
falamos? O que são as palavras? O que elas produzem? Essas questões tocam
diretamente o homem, e ele tem procurado dar-lhes uma resposta.
De posse desse saber sobre a Linguagem, o homem tenta domesticar os seus
poderes e trazê-los para si. Mas, será que ele consegue?
Entende-se que a Linguagem é a capacidade
humana para se compreender e se usar um sistema complexo e dinâmico de símbolos
convencionados, usado em modalidades diversas para comunicar e pensar.
Manifesta-se em todas as atividades sociais e culturais e constituindo a base
da transmissão cultural, dos sistemas de valores e das tradições que
caracterizam a sociedade humana. É uma capacidade natural que não necessita de
justificação. Ela está de tal modo ligado à experiência do homem que é
impossível imaginar a vida sem ela, uma vez que constitui um instrumento
essencial para aceder aos pensamentos e conhecimentos. Pressupõe um sistema
codificado, que, quando está enraizado, e é próprio de uma determinada
comunidade, se traduz numa Língua, ou seja: gramaticalmente entrelaçado.
II - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
As reflexões produzidas nos últimos anos sobre Língua é a de que a mesma é a
concepção de uma das formas de manifestação da Linguagem[5],
e como um fenômeno de interação social, envolve, segundo BAKHTIN (1995, p.113)
“a situação social mais imediata e o meio social mais amplo”, o que determina o
caráter enunciativo da língua e da linguagem. Reconhecer o caráter enunciativo
da língua e da linguagem quer dizer que o deslocamento de uma visão de sentido
imediato ao enunciado linguístico, como algo acabado, para uma visão de sentido
determinado pelas suas condições de produção chegam a incluir, segundo PCNEM
(2002, p. 143) “o contexto, os interlocutores, gêneros discursivos, recursos
utilizados pelos interlocutores para afirmar o dito/escrito, os significados
sociais, a função social, os valores e o ponto de vista determinam formas de
dizer/escrever. As paixões escondidas nas palavras, às relações de autoridade,
o dialogismo entre texto e o diálogo fazem o cenário no qual a língua assume o
papel principal”.
Em outras palavras, “trazer
à tona o contexto de produção, os recursos utilizados pelos interlocutores, os
valores, o ponto de vista e as relações de autoridade, como determinantes das
formas de dizer/escrever, significa estabelecer relação estreita entre
mecanismos enunciativos constitutivos da língua e da linguagem – dêixis,
modalização, polissemia e duplo sentido, polifonia e heterogeneidade,
implícitos, entre outros -, e as questões de ideologia identidade e poder”
(Orientações Curriculares para o Ensino Médio – (OCEM, 2006, p. 92-110)).
Grosso modo, língua[6]
é um conjunto de valores e crenças sócio-culturais, construídas nas práticas de
linguagem.
2.2 Concepção[ões] de linguagem
A linguagem é entendida primeiramente como expressão do pensamento. A
expressão se constrói no interior da mente, sendo sua exteriorização apenas uma
tradução. Pode ser dito então que a enunciação é um ato monológico individual,
não afetado pelo outro nem pelas circunstâncias que constituem a situação
social em que a situação acontece. Presuma-se então, que existem regras a serem
seguidas para a organização lógica do pensamento, e, consequentemente, da
linguagem.
Uma segunda concepção vê a linguagem como instrumento de comunicação, como
meio objetivo para a comunicação. Segundo NEDER, (1992, p. 38) “o sistema
linguístico é percebido como um fato objetivo externo à consequência individual
e independente desta. A língua opõe-se ao indivíduo enquanto norma indestrutível,
peremptória, que o indivíduo só pode aceitar como tal”.
Essa concepção levou ao
estudo da língua enquanto código virtual; que não possa se considerar que os
interlocutores e a situação de uso como determinante das unidades e regras que
constituem a língua, isto é, afastou o indivíduo falante do processo de
produção, do qual é social e histórico na língua. “Essa é uma visão monológica
e imanente da língua que a estuda segundo uma perspectiva formalista – que
chega a limitar esse estudo ao funcionamento interno da língua – e que a chega
a separar o homem no seu contexto social, concepção esta representada pelos
estudos linguísticos realizados pelo estruturalismo
(a partir de Saussure) e pelo transformacionalismo (a partir de Chomsky)” (NEDER, 1992, p. 41, que adota ideias de Frigotto, 1990, p. 20).
A terceira concepção vê a
linguagem como a forma ou processo de interação. Nessa concepção, vê-se que o
indivíduo não somente traduz e exterioriza um pensamento, ou transmite
informações a outrem, mas sim realiza ações, agir, atuar sobre o interlocutor.
A linguagem é um lugar de interação humana e comunicativa pela produção de
efeitos de sentido entre interlocutores, em uma dada situação de comunicação e
em um contexto sócio-histórico e ideológico. É como diz Neder (1992, pp. 42 e 43) citando Baktin (1986, p. 123):
“a verdadeira substância da linguagem não é constituída por um sistema
abstrato de formas linguísticas, nem pela enunciação monológica isolada, nem
pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da
interação verbal, realizada pela enunciação ou enunciações (cf. nota 7). A
interação verbal constitui, assim, a realidade fundamental da linguagem”.
Dessa forma o diálogo em
sentido amplo é que caracteriza a linguagem. Essa concepção é representada por
todas as correntes de estudo da língua que podem ser reunidas sob o rótulo de
linguística da enunciação; certamente que aqui estariam inclusas as correntes
teóricas tais como a da Linguística Textual, a Teoria do Discurso, a Análise do
Discurso, a Análise da Conversação, a Semântica argumentativa e todos os
estudos de algumas formas ligadas ao pragmatismo.
Em suma, a linguagem é a capacidade humana para compreender e usar um
sistema complexo e dinâmico de símbolos convencionados, usado em modalidades
diversas para comunicar e pensar. Manifesta-se em todas as atividades sociais e
culturais, constituindo a base da transmissão cultural, dos sistemas de valores
e das tradições que caracterizam a sociedade humana. É uma capacidade natural
que não carece de justificação. Está de tal modo ligada à experiência do homem
que é impossível imaginar a vida sem ela, uma vez que constitui um instrumento
essencial para aceder aos pensamentos e conhecimentos. Pressupõe um sistema
codificado, que quando está enraizado e é próprio de uma determinada
comunidade, se traduz numa Língua.
2.3 Concepção[ões] de gramática
A concepção de gramática é concebida como um manual com regras de bom uso da
língua a serem seguidas por aqueles que querem se expressar adequadamente; ela
é normalmente rotulada de gramática normativa.
A gramática normativa, que é aquela em quem se estuda apenas os fatos da
língua padrão, da norma culta de uma língua, norma essa que se tornou oficial.
Ela se baseia geralmente mais nos fatos da língua escrita e dá pouca
importância à variedade oral da norma culta, que é vista, conscientemente ou
não, como idêntica à escrita. Ao lado da descrição da norma ou variedade culta
da língua (análise de estruturas, uma classificação de formas morfológicas e
léxicas), a gramática normativa apresenta e dita normas de bem falar e
escrever, normas para a correta utilização oral e escrita do idioma,
prescrevendo o que se deve: é o conjunto sistemático de normas para bem falar e
escrever, estabelecidas pelos especialistas, com base no uso da língua,
consagrado pelos bons escritores. Dizer que alguém ‘sabe gramática’ significa
dizer que esse alguém conhece essas normas e as domina tanto nacionalmente
quanto operacionalmente.
Dessa maneira, gramatical aqui seria aquilo que obedece, que segue as normas
de bom uso da língua; configurando o falar e o escrever bem.
Nesse primeiro sentido, pode ser dito que a língua é só a variedade dita
padrão e deve ser seguida por todos os cidadãos falantes dessa língua para não
contribuir com a degeneração da língua de seu país. A gramática só trata da
variedade de língua que se considerou como a norma culta, fazendo uma descrição
dessa variedade e considerando erro tudo o que não está de acordo com o que é
usado nessa variedade da língua. Em poucas palavras: tudo o que foge a esse
padrão é “errado” (agramatical, ou melhor, dizendo, não gramatical), e o que
atende a esses padrões é “certo” (gramatical).
As normas de bom uso da língua são baseadas no uso da língua que são
baseadas no uso consagrado pelos bons escritores e, por tanto, ignoram as
características próprias da língua oral.
Portanto, estão embutidos nessa concepção de gramática vários modos de
perceber e definir a chamada norma culta que mobilizam argumentos de diferentes
ordens para incluir na norma culta ou excluir dela formas e usos e, assim,
fundamentar e exercer seu papel prescritivo. Os argumentos são, sobretudo, de
natureza: estética, elitista ou aristocrática, política, comunicacional e
histórica:
Estética: as formas e usos são incluídos ou excluídos da norma culta por
critérios tais como elegância, colorido, beleza, finura, expressividade,
eufonia, harmonia; devendo-se evitar vícios tais quais a cacofonia, a colisão,
o eco e o pleonasmo vicioso;
Elitista ou aristocrática: aqui o critério é a contraposição do uso da
língua que é feito pela classe de prestígio ao uso das classes ditas populares.
Quando as gramáticas registram que certos usos são da linguagem popular, mas
não como um registro de diferenças objetivas entre variedades, mas como uma
condenação.
Política: aqui os critérios são basicamente o purismo e a vernaculidade. Há
a pretensão e a necessidade de excluir da língua tudo o que não seja de origem
grega, latina ou vinda de épocas remotas da língua.
Comunicacional: nesse caso os critérios se referem ao efeito comunicacional,
à facilidade de compreensão.
Histórica: com frequência, o critério para excluir formas e usos de norma
culta é a tradição.
Secundariamente o entendimento sobre gramática é a que tem sido chamada de
gramática descritiva, ou seja, faz uma descrição da estrutura e funcionamento
da língua, de sua forma e função. A gramática seria então “um conjunto de
regras que o cientista encontra nos dados que analisa, à luz de determinada
teoria e método”. Essas regras seriam as “utilizadas pelos falantes na
construção real de enunciados” Segundo NEDER (1999, p. 49) citando Franchi (1991) “é um sistema de noções
mediante as quais se descrevem os fatos de uma língua, permitindo associar a
cada expressão dessa língua uma descrição estrutural e estabelecer suas regras
de uso, de modo a separar o que é gramatical do que não é gramatical”.
Gramatical é considerado como tudo que atende às regras de funcionamento da
língua de acordo com determinada variedade linguística. O critério é
linguístico e objetivo.
A terceira concepção de gramática é a que se refere na direção em que, se
considerando a língua como um conjunto de variedades utilizadas por uma
sociedade de acordo com o exigido pela situação de interação comunicativa em
que o usuário da língua está engajado, percebe a gramática como o conjunto das
regras que o falante de fato aprendeu e das quais lança mão ao falar: Gramática
corresponde ao saber linguístico que o falante de uma língua desenvolve dentro
de certos limites impostos pela sua própria dotação genética humana, em
condições apropriadas de natureza social e antropológica.
III DE Ferdinand Mongin de Saussure ATÉ A GRAMÁTICA NORMATIVA: EM BUSCA DE REGRAS E DEFINIÇÕES
3.1 Influências das ideias de Saussure e da
Gramática
Tendo em
vista que o princípio que rege a filosofia da linguagem é o estatuto que une a
palavra até a coisa promulgada, pretende-se desde a tanto, relacionar os
princípios de Linguística Geral postulados por Saussure com as concepções da
Gramática Normativa[7],
levantando os pontos em comum e as divergências dessa teoria linguística com a
ciência gramatical. Sabe-se que existe uma ambiguidade da linguagem e a
inadequação dos sistemas lógicos disponíveis e, as consequências que isso traz,
tanto diante do ensino de língua quanto diante da postura que se terá diante de
tantas contradições falaciosas; posto que a relação entre palavra e coisa foi
muito estudada por diferentes estudiosos em diferentes épocas. Há muitos
estudos a respeito desse enfoque, alguns mais conhecidos, outros menos. Em suma:
o que se chega a ser senso comum é que essa relação se dá arbitrariamente. Essa
arbitrariedade permite que a linguagem seja passível de equívocos.
3.2 Desenvolvimento do trabalho para Saussure
O trabalho de
Saussure abordava a relação “nome” e “coisa” atribuindo-lhe uma nomenclatura
inicial de imagem acústica e conceito que mais tarde foi substituída por
“significado” e “significante”, respectivamente, cuja união recebe o nome de
signo. Além disso, Saussure afirmou que essa relação entre significado e
significante chegava a ser arbitrária, visto que não existia um vínculo natural
entre a idéia e a sequência de sons. No que se segue, Saussure (2006, pp.
81-82) argumenta sua afirmação comparando línguas diferentes afirmando que
“assim como a idéia de ‘mar’ não está ligada por relação alguma interior à
sequência de sons m-a-r que lhe serve de significante; poderia ser representada
igualmente bem por outra sequência, não importa qual; como prova, temos as
diferenças entre as línguas e a própria existência de línguas diferentes: o
significado da palavra francesa boeuf (‘boi’) tem por significante b-ö-f
de um lado da fronteira franco-germânica, e o-k-s (Ochs) do outro”.
Saussure
sugeria que os termos “conceito” e “imagem acústica” fossem substituídos por
significado e significante. O fato é que, por trás de uma palavra sempre
existirá um conceito, mesmo que tal objeto seja abstrato. Nesse caso, a
gramática deveria eliminar o sujeito indeterminado, os artigos indefinidos,
pronomes indefinidos, etc. No entanto, a linguagem, como um todo, é ambígua,
mas a gramática admite essa possibilidade. De acordo com Rodolfo Ilari (1985),
a gramática tradicional apresenta vários problemas e muitas incoerências.
Gramáticos tradicionalistas tais quais Evanildo Bechara, ao tratar do gênero do
substantivo, via de exemplo, direciona para a inexistência de uma justificativa
para o uso do gênero do substantivo. A essa falta de justificativa, ele mesmo a
chama de “inconsistência do gênero gramatical”. Segundo o próprio gramático, a
distinção do gênero nos substantivos não apresenta fundamentos racionais,
exceto a tradição fixada pela norma mesma. Tal afirmação parece ser baseada nos
princípios estabelecidos por Saussure, onde ele diz que a língua é um sistema
de signos, e esses signos, por sua vez, são arbitrários, ou seja, não existe
uma relação ideológica entre significante e significado. Por ser apresentada
essa característica, é necessário que um determinado grupo adote uma convenção.
Porém, essa convenção se dá inconscientemente. Os gramáticos são praticamente
unânimes em chegarem a contestar essa convenção e, assim como Saussure (2005,
p. 133), reforçam a sua afirmação comparando línguas diferentes “assim é para
nós o sol é masculino e para os alemães é feminino “die Sonne”, a lua é feminino e para
eles masculino “der Mond”; enquanto
o português mulher é feminino, em alemão é neutro “das Weib”. Sal e leite são masculinos em português e femininos
em espanhol: “la sal” e “la
leche”. Sangue é masculino em português e francês e feminino
em espanhol: “le sang” (fr.)
e “la sangre” (esp.)”.
Além disso,
ele cita a mudança de gênero como consequência dessa arbitrariedade: Na
variedade temporal da língua, do português antigo ao contemporâneo, muitos
substantivos passaram a ter gêneros diferentes, alguns sem deixar vestígios
(...). (ibid.).
Podemos
remeter essa afirmação ao fenômeno que Saussure chama de Diacronia. Trata-se de
um fenômeno Linguístico de caráter acidental e particular que ocorre em todas
as línguas sem poder ser evitado nem previsto. Esse fenômeno terá como
resultado a mutabilidade do signo, o qual está subjugado à ação do tempo e da
massa falante. O ponto em que Saussure e a Gramática aparentemente divirjam é
que, Saussure, enquanto linguista e fundador da Linguística, afirmou que não é
possível estabelecer regras em linguística, segundo suas próprias palavras:
“falar de leis em Linguística Geral é querer abraçar um fantasma”; mas tal
afirmação se deve ao fato de a língua ser uma convenção, e, sendo assim, ela é
exatamente algo que abranja uma totalização que chegue a tratar de uma
convenção que seja útil e necessariamente atrelada com a gramática e que
prescreva normas, evitando que os falantes se distanciem do padrão e permitindo
que a comunicação se processe. O fato de Saussure falar que não existiam leis
em Linguística Geral, não chega a trazer a interpretação de que exista uma
sobreposição concernente ao fato de existir uma gramática para cada língua. Ao
fazer tal afirmação, Saussure está se baseando nos aspectos convencionais que
todas as línguas estão subjugadas, e é por esse mesmo motivo que se deve a
importância de uma gramática normacional.
É senso comum
entre os linguistas mais famigerados que as gramáticas não conseguem dar conta
de todos os fatos linguísticos, debalde, qual seria a intenção da gramática em
levantar essas questões que estão fora do âmbito da Gramática
Tradicional/Padrão/Normativa em si mesma? Seria mostrar aos professores que
ensinar língua não se restringe somente à gramática? Essa é uma questão que
cabe somente à própria Gramática Paradigmática responder.
Citando-se
Neves (2002), ele chegou a considerar que “seria um equívoco por parte dos
professores, eles mesmos chegarem a crer que apenas a leitura dos manuais de
gramática garantiria um bom desempenho linguístico; todavia, não se pode
conceber o ensino da língua só como ensino de gramática”.
Ainda,
segundo uma pesquisa realizada por Neves (2002, p. 239) com cento e setenta
(170) professores de Língua Portuguesa de 5ª a 8ª série na passada década de
noventa (1990), cem por cento (100%) dos entrevistados afirmaram que ensinavam gramática. Além disso, esses professores acreditam que esse
tipo de atitude, “não servia para nada”. Com base nos resultados encontrados,
ela explicita a seguinte questão: se a finalidade do ensino da gramática é
levar a ‘escrever melhor’, se a gramática contemplada é um simples jogo de
rotulação de classes e de funções sintáticas, realmente se tem de pôr em
questão a validade da existência de uma atividade de ensino de gramática nas
escolas.
O fato é que,
mesmo sabendo que ensinar língua não se restringe somente ao ensino da
gramática, e que a língua não se delimita somente à norma culta e escrita, os
professores empregam essa prática porque, segundo Moura Neves ainda não existe,
então, uma receita de como dar aula de português, mas existe a possibilidade de
achar um meio através de questionamentos, pela discussão, pela recusa de receitas
prontas e consideradas definitivas. A gramática não consegue “ensinar tudo”,
conquanto, a tentativa de se inserir a linguística no ensino fundamental,
modelarmente mencionando, vemos que isso se tornou frustrador, segundo Neves
(2002, pp. 255 e 256) “houve um tempo em que o deslumbradamente se acreditou
que as teorias desenvolvidas na ciência linguística substituíram a mal fadada e
mal falada gramática tradicional, nas escolas de ensino médio (…) felizmente
parece que já se desistiu”.
Pode-se,
dessa forma, atribuir a razão desse “fracasso” à maneira como a Linguística foi
inserida no curso de Letras por si e em si mesmo. Tudo o que se tinha acumulado
de informações e pesquisa foi “despejado (inserido)” dentro do currículo de
Letras. Esse atropelamento de dados contribuiu para que as diferenças fossem
frequentemente negligenciadas.
Consequentemente
a aplicação da Linguística no ensino médio também foi um fracasso, pois o
professor universitário não estava (e não está) preparado para relacionar a
linguística com o ensino de língua portuguesa. Esse confuso entendimento
deve-se ao fato de Linguística e Língua Portuguesa parecerem aos professores
que não tem nada que se tenha a ver uma coisa com a outra, implicando-se que
devido a essa segmentação de disciplinas, quando, na verdade, a Linguística
mesma, tem como função fornecer instrumentos necessários para o ensino de
língua portuguesa, no caso. Agora, outro fator que possa ter contribuído para
esse fracasso, é essa tradição de se transmitir conhecimento. A prática do
ensino da gramática tem como função fixar a norma culta, enquanto a teoria
linguística tenta explicar o funcionamento da língua, tanto oral quanto
escritamente.
Se a
gramática é contraditória e limitada, em determinado ponto de vista da mesma,
então esse passa a ser um dos poucos instrumentos que o professor de português
acredita dominar, se for assim mesmo. Então: qual seria a causa dessa limitação
e dependência do professor em relação à gramática? Em contrapartida: para que
servem as aulas de Linguística ensinadas na Universidade? Será que há
necessidade de se ficar quatro anos na universidade assistindo as aulas de
Linguística se quando sairmos de lá iremos ensinar somente a gramática? Talvez
a pergunta mais adequada seria feita por Neves (2002, p. 270): “(...) o
professor de português recebe na universidade uma formação necessária que lhe
permita compreender - com todas as suas consequências - o que é língua em
funcionamento, e, a partir daí, que lhe permita saber o que é ensinar a língua
materna para os alunos que lhe são entregues?”
Só será
possível responder qual a postura que o professor deve assumir diante das
“contradições” da gramática no momento em que ele aprender a questioná-la, e
esse é um dos papéis que cabe à responsável pela sua formação ensinar, a
universidade.
CONCLUSÃO
Pelo que foi
possível entender via Gramática Normativa, há essa possibilidade de se estudar
língua, ensinando-se Linguística[8]
e Gramática ao mesmo tempo. O número esmagador de gramáticos questiona a
própria gramática, mesmo eles sendo o que são. Isso nada menos prova que a
gramática é muito limitada, e é imprescindível a sua relação com a Linguística.
Esta questão ventilada e direcionada para os gramáticos tem fundamentação
teórica em Saussure, o que atesta a influência dos estudos Linguísticos sobre a
Gramática. Nem mesmo as pesquisas realizadas pela Linguística Aplicada
conseguiram achar uma receita de como dar aula de português. Sumariadamente,
uma das constatações dessas pesquisas é a de que a transmissão de conhecimento
não é o caminho mais adequado para ensinar língua, tanto pré quanto pós
universitariamente, mesmo que não existem propostas sobre essa crítica. O que
acontece na realidade é que o professor de português não está preparado para
questionar a gramática, aceitando, assim, inviolavelmente, a sua dependência
forçada.
Referências Bibliográficas
Allan, Kenneth D. Explorations in Classical Sociological
Theory: Seeing the Social World. Pine Forge Press. p. 105,
2005.
ABAURRE, M. L.; PONTARA, M. N.; FADEL, T. Português: língua e literatura. Ensino Médio: volume único. 2. ed.
São Paulo: Moderna, 2003.
BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da língua
portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa.
Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.
Béguin, Albert: L’Ame romantique et le rêve (1937); id.: Poésie
de la présence (1957).
BOUQUET, Simon. Introdução à Leitura de
Saussure. São Paulo: Cultrix, 2000.
CÂMARA Jr., Joaquim Mattoso. História da linguística. 6. ed. Traduzido
por Maria do Amparo Barbosa de Azevedo. Petrópolis: Ed. Vozes, 1975. pp.15-97.
CÂMARA Jr., Joaquim Mattoso. História da Linguistica. Petrópolis:
Vozes, 1975.
Culler, J. (1976). Saussure. Glasgow:
Fontana/Collins.
Ducrot, O. and Todorov, T. (1981). Encyclopedic Dictionary of the
Sciences of Language, trans. C. Porter. Oxford: Blackwell.
Durkheim Emile, Foundations of the Classic Sociological
Theory, in Scott Appelrouth; Laura Desfor Edles (26 September 2007).
FARACO, Carlos Alberto. Linguística Histórica. São Paulo: Ática, 1991. pp. 81-98.
FIORIN, José Luiz. (Org.) Introdução à linguística. Vol. I. Objetos teóricos. São Paulo:
Contexto, 2006. pp.11-24; pp.165-186 e pp. 95-120.
FRANCHETTO, Bruna; LEITE, Yonne. Origens da Linguagem. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2004. pp. 7-24.
FRIGOTTO, Edith Ione dos Santos. Concepções de linguagem e Ensino de Língua
Materna: Do Formalismo Ensinado ao Real Ignorado. Tese de Mestrado, Rio de
Janeiro, 1990.
http://www.asha.org/docs/html/RP1982-00125.html - capturado
em 23-08-2011.
http://www.wellingtondemelo.com.br/site/2010/01/conceitos-basicos-de-linguistica/ - capturado em 23-08-2011.
Harris, R. (1987). Reading Saussure. London:
Duckworth.
Holdcroft, D. (1991). Saussure: Signs, System, and Arbitrariness.
Cambridge University
Press.
ILARI, Rodolfo. A Linguística e o ensino de
língua portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 1985.
Kim, Sung Ho. Max Weber: Stanford
Encyclopedia of Philosophy http://plato.stanford.edu/entries/weber/ - 2007: capturado
em17-02-2010.
LOPES, Edward. Fundamentos da Linguística Contemporânea. São Paulo: Cultrix, 1995,
p. 35-38.
Lyons, J. (1968). An Introduction to Theoretical Linguistics.
Cambridge University Press.
LYONS, John. Lingua(gem) e Linguística: Uma Introdução. Rio de Janeiro: LTC,
1987. pp. 25-39.
LYONS, John. Linguagem e linguística: uma introdução. Rio de Janeiro: LTC,
1987. pp 1-20; pp. 25-42 e pp. 161-169.
Man, Paul the: The
Literary Self as origin: The Work of George Poulet, in Blindness and Insight
(1971).
MARCUSCHI, Luiz Antonio. Gêneros
textuais: definições e funcionalidade. In: DIONISIO, A. et al. (Orgs.).
Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Cortez, 2005.
Martin, Michael and Lee C. McIntyre. 1994. Readings
in the Philosophy of Social Science. Boston: MIT press.
MARTELOTTA, Mario Eduardo et AL. Manual de Linguística. São Paulo: Contexto,
2008. pp. 37-41; p. 15-29.
MARTELOTTA, Mário. Manual de Linguística. São Paulo: Contexto, 2008. pp. 13-30;
pp.43-70; pp. 111-140 e 157 até 176.
Miller, J. Hillis: Ethics of Reading (1987); id.: “The Geneva School”, in Modern
French Criticism, ed. por J. K. Simon (1972); Marcel Raymond: De
Baudelaire au surréalisme (1933).
MIRA-MATEUS, Maria Helena; VILLALVA, Alina. O Essencial sobre Linguística. Lisboa:
Caminho, 2006. pp. 79-92.
MOURA NEVES, Maria Helena de. A
gramática – história, teoria e análise, ensino. São Paulo: UNESP, 2002.
MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Ana Christina. Introdução à Linguística: fundamentos
epistemológicos, Vol. III. São Paulo: Cortez, 2004. pp.93-130 e pp. 165-218.
NEDER, Maria Lúcia Cavalli. Concepções de linguagem e o ensino de
língua portuguesa. Cuiabá: UFMT, 1992.
Orientações Curriculares para o Ensino Médio (Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias): (OCEM), Arte, Educação Física,
Língua Estrangeira, Espanhol, Língua Portuguesa e Literatura. Ministério da
Educação e da Cultura, 2006.
PEREIRA, Dulce. Crioulos da base portuguesa. Lisboa: Caminho, 2006. pp. 19-32.
Poulet, Georges: Études sur le temps human, 4 vols.
(1949-68); id.: La Conscience critique (1971);
id.: “Phenomenology of Reading”, New
Literary History, 1 (Oct. 1969); id.: La Poésie éclatée
(1980).
Rousset, Jean: Forme et signification (1962);
id.: L’ Intérieur et l’extérieur (1968).
Sanders, C., ed. (2004). The Cambridge Companion to
Saussure. Cambridge University Press.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo, Cultrix. pp. 26-79.
Simpson, George (Trans.) in Durkheim, Emile The Division of Labour in Society" The Free Press, New York,
1993.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral.
São Paulo: Cultrix, 2001.
SAUSSURE, Ferdinand de. Escritos de Linguística Geral.
São Paulo: Cultrix, 2004.
Starobinski, Jean. L'Oeil vivant (1961); L'Oeil
vivant II: La Relation Critique (1970); id.: 1789: Les Emblèmes de la raison (1973); id.: Les
Mots sous les mots: Les Anagrames de Ferdinand de Saussure (1971);
id.: Portrait de l'artiste en saltimbanque (1970).
Strenski, Ivan. Durkheim
and the Jews of France. Chicago: University of Chicago Press. 1997.
WEEDWOOD, Bárbara. História Concisa da Linguística. São Paulo: Parábolas, 2002. pp.
9-15.
Wittmann, Henri (1974). New
tools for the study of Saussure's contribution to linguistic thought. Historiographia
Linguistica. pp. 1.255-64.
PCN Ensino Médio: Orientações
Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais
(Linguagens Códigos e suas Tecnologias).
Calhoun Craig J. Classical sociological theory. Wiley-Blackwell.
p. 107, 2002.
Jones, Robert Alun and Rand
J. Spiro. Contextualization, cognitive
flexibility, and hypertext: the convergence of interpretive theory, cognitive
psychology, and advanced information technologies. in Susan Leigh Star (ed.) 1995. The
Cultures of Computing. Sociological Review Monograph Series.
Richard, Jean-Pierre: Littérature et sensation (1954);
id.: Microlectures I-II (1979-84).
[1] Aluno em regime especial pelo Programa de Pós
Graduação em Linguística (PROLING), pelo Centro de Ciências Humanas, Letras e
Artes (CCHLA), pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pagante da
Disciplina Princípios em Sociolinguística, ministrada pelo Professor Rubens M. Lucena.
[2] A linguagem tem um lado individual e um lado
social, sendo impossível conceber um sem o outro. Finalmente: a cada instante,
a linguagem implica ao mesmo tempo um sistema estabelecido e uma evolução: a
cada instante, ela é uma instituição atual e um produto do passado. Parece
fácil, à primeira vista, distinguir entre esses sistemas e sua história, entre
aquilo que ele é e o que foi; na realidade, a relação que une ambas as coisas é
tão íntima que se faz difícil separá-las. Seria a questão mais simples se se
considerasse o fenômeno linguístico em suas origens; se, por exemplo,
começássemos por estudar a linguagem das crianças? Não, pois é uma idéia
bastante falsa crer que em matéria de linguagem o problema das origens difira
do das condições permanentes; não se sairá mais do círculo vicioso, então.
[3] O conceito de língua varia muito segundo
a corrente teórica que o professe. Abaurre e Pontara
(2006, p. 3) entendem a língua como um “sistema de representação
socialmente construído, constituído de signos linguísticos”.
Observe-se aqui o caráter social da língua,
uma vez que só existe mediante esta negociação entre seus falantes. Complementamos
o conceito das autoras com o de Marcuschi (2005,
p. 31), para quem a língua é “um conjunto de práticas sociais
e cognitivas historicamente situadas.”
Sendo assim, não podemos entender a língua
como uma estrutura autônoma, alheia à realidade dos falantes
e imutável.
[4] Ainda pode ser dito que a palavra língua tem
várias acepções. Por um lado, refere-se ao órgão muscular que se situa na
cavidade bucal dos animais vertebrados e que permite degustar, deglutir,
mastigar e articular os sons que lhes são próprios.
Trata-se do órgão mais forte do corpo humano, com uma musculatura de origem
hipobranquial como a epiglote. Tem uma face superior, também conhecida como o
dorso da língua, a qual apresenta a forma de V (o sulco terminal, aberto para a
frente e formado pelas papilas caliciformes). Na face inferior (a parte
ventral), encontra-se o freio (ou o filete), que limita os movimentos da língua
e que é bastante resistente.
Por outro lado, o conceito de língua pode fazer referência ao idioma, que é
um sistema de comunicação verbal ou gestual próprio de uma comunidade humana.
O termo língua natural permite referir-se a uma variedade linguística ou
forma de linguagem humana com fins comunicativos que é dotado de uma sintaxe e
que é suposto obedecer aos princípios da economia e da otimalidade. Embora as
línguas naturais usem símbolos sonoros, também podem usar sinais.
No que diz respeito à língua materna, igualmente conhecida como língua
popular, idioma materno, língua nativa ou primeira língua, é o primeiro idioma
que aprende um ser humano.
No caso das aves, dá-se o nome de língua à hipofaringe. Também se refere à
parte da armadura bucal de alguns insetos. Finalmente, a língua (ou
língua-de-vaca) pode designar a solha que é típica nas costas marítimas do Sul
de Portugal.
[5] Abaurre e Pontara definem muito bem linguagem como:
“uma atividade humana que, nas representações de mundo que constrói,
revela aspectos históricos, sociais e culturais. É por meio da linguagem
que o ser humano organiza e dá forma às suas experiências.” Se entendermos
a profundidade deste conceito, entenderemos que não podemos reduzir
a linguagem a um meio de comunicação, como normalmente se faz,
já que é a partir dela que construímos nossa memória e consequentemente
nossa História. Sem linguagem não existiria a civilização como
conhecemos.
[6] Ela jamais se confunde com a linguagem; é somente uma parte
determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto
social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias,
adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos
indivíduos. Tomada em seu todo, todavia, a linguagem é multiforme e heteróclita; o cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo
tempo física, fisiológica e psíquica, ela pertence, além disso, ao domínio
individual e ao domínio social; não se deixa classificar em nenhuma categoria
de fatos humanos, pois não se sabe inferir sobre sua unidade. A língua, ao
contrário, é um todo por si e um princípio de classificação. Desde que lhe
demos o primeiro lugar entre os fatos da linguagem, introduzimos uma ordem
natural num conjunto que não se presta a nenhuma outra classificação. A esse
princípio de classificação poder-se-ia objetar que o exercício da linguagem
repousa numa faculdade que nos é dada pela Natureza, ao passo que a língua
constitui algo adquirido e convencional, que deveria subordinar-se ao instinto
natural em vez de adiantar-se a ele. Vocais;
de certo modo, já nos haviam sido impostas pela Natureza. No ponto essencial,
porém, o linguista norte-americano nos parece ter razão: a língua é uma convenção e a
natureza do signo convencional é indiferente. A questão do aparelho vocal se
revela, pois, secundária no problema da linguagem. Certa definição do que se
chama de linguagem
articulada poderia
confirmar esta idéia. Em latim, articulus
significa “membro, parte,
subdivisão numa série de coisas”; em matéria de linguagem, a articulação pode
designar não só a divisão da cadeia falada em sílabas, como a subdivisão da
cadeia de significações em unidades significativas; é neste sentido que se diz
em alemão gegliederte
Sprache. Apegando-se
a esta segunda definição, poder-se-ia dizer que não é a linguagem que é
natural ao homem, mas a faculdade de constituir uma língua vale dizer: um
sistema de signos distintos correspondentes a ideias distintas.
Descobriu-se que a faculdade de falar se localiza
na terceira circunvolução frontal esquerda; também nisso se apoiaram alguns
para atribuir à linguagem um caráter natural. Mas sabe-se que essa localização foi comprovada por tudo quanto
se relaciona com a linguagem, inclusive a escrita, e essas verificações,
unidas às observações feitas sobre as diversas formas de afasia por lesão
desses centros de localização, parecem indicar: 1. que as perturbações diversas da linguagem oral
estão encadeadas de muitos modos às da linguagem escrita; 2. que, em todos os casos de afasia ou de agrafia, é atingida menos a
faculdade de proferir estes ou aqueles sons ou de traçar estes ou aqueles
signos que a de evocar por um instrumento, seja qual for, os signos duma
linguagem regular. Tudo isso nos leva a crer que, acima desses diversos órgãos,
existe uma faculdade mais geral, a que comanda os signos e que seria a
faculdade linguística por
excelência. E somos assim conduzidos à mesma conclusão de antes. Para atribuir
à língua o primeiro lugar no estudo da linguagem, pode-se, enfim, fazer valer o argumento de que a faculdade — natural ou não — de articular palavras não se exerce senão com ajuda
de instrumento criado e fornecido pela coletividade; não é, então, ilusório dizer que é a língua que faz
a unidade da linguagem. Eis o que pode se responder: inicialmente, não
está provado que a função da linguagem, tal como ela se manifesta quando
falamos, seja inteiramente natural, isto é: que nosso aparelho vocal tenha
sido feito para falar, assim como nossas pernas para andar. Os linguístas
estão longe de concordar nesse ponto.
[7] Sabemos que
todas as línguas variam segundo diferentes critérios (o lugar onde são
faladas, a época, o grupo que as utiliza etc.). No entanto, todas as línguas
— independente do grau de evolução tecnológica que tenham — possuem uma
variedade prestigiada que se utiliza para ter acesso a determinadas
instâncias de poder. É o que chamamos de norma culta, norma padrão ou
variedade prestigiada.
Ao contrário do que possa parecer, a norma culta não corresponde
necessariamente ao professado nas gramáticas normativas: é muito
mais um amálgama de negociações em torno a formas linguísticas que
representam o linguajar de uma determinada elite sócio-econômica que
impõe sua variedade como o padrão. Cientificamente não se pode falar
de uma variedade “melhor” ou “pior” do que a outra. A norma culta
existe por conta de pressões sociais que exigem o emprego de uma determinada
variedade para determinadas interações na sociedade, mas seria qualquer
outra, caso os grupos sociais dominantes fossem outros. Por exemplo, podemos
notar certo “padrão” entre os jornalistas da Globo, normalmente alinhado
às variantes do Sudeste. Isso se dá por certa imposição velada da empresa
por representar o padrão da região economicamente mais poderosa do
país. Se o Nordeste estivesse nesta posição, provavelmente
o padrão “globês” seria outro.
É de se esperar, por outro lado, de um candidato a um emprego que
requeira o trato com um público exigente que domine o padrão,
e cabe à escola possibilitar aos cidadãos essa flexibilidade para
trafegar entre as variedades que cada um possui como herança de sua criação,
de suas interações sociais, e a variedade padrão.
[8] Qual foi o objeto, ao mesmo tempo integral e
concreto da Linguística?
Outras ciências trabalham com objetos dados propriamente e que se podem considerar, em seguida, de vários pontos de vista; em nosso campo, nada de semelhante ocorre. Alguém pronuncia a palavra nu: um observador superficial será tentado a ver nela um objeto linguístico concreto; um exame mais atento, porem, nos levara a encontrar no caso, uma apos outra, três ou quatro coisas perfeitamente diferentes, conforme a maneira pela qual consideramos a palavra: como som, como expressão duma ideia, Como correspondente ao latim nudum etc.
Bem longe de dizer que o objeto precede o ponto
de vista, diríamos que e o ponto de vista que cria o objeto; aliás, nada nos
diz de antemão que uma dessas maneiras de considerar o fato em questão seja
anterior ou superior às outras.
Alem disso, seja qual for a que se adote, o
fenômeno linguístico apresenta perpetuamente duas faces que se correspondem e
das quais uma não vale senão pela outra.
Mas admitamos que o som seja uma coisa simples:
é ele quem faz a linguagem? Não, não passa de instrumento do pensamento e não
existe por si mesmo. Surge daí uma nova e temível correspondência: o som,
unidade complexa acústico-vocal, forma por sua vez, com a idéia, uma unidade
complexa, fisiológica e mental.
E ainda mais:
Destarte, qualquer que seja o lado por que se
aborda a questão, em nenhuma parte se nos oferece integral o objeto da Linguística.
Sempre encontramos o dilema: ou nos aplicamos a um lado apenas de cada problema
e nos arriscamos a não perceber as dualidades assinaladas acima, ou, se
estudarmos a linguagem sob vários aspectos ao mesmo tempo, o objeto da
Linguística nos aparecerá como um aglomerado confuso de coisas heteróclitas, sem liame entre si. Quando se procede assim, abre-se a
porta a várias ciências — Psicologia, Antropologia, Filologia etc. —, que
separamos claramente da Linguística, mas que, por culpa de um método
incorreto, poderiam reivindicar a linguagem como um de seus objetos.
Há, segundo nos parece, uma solução para todas
essas dificuldades: é necessário colocar-se primeiramente no
terreno da língua e tomá-la como norma de todas as outras manifestações da
linguagem. De fato, entre tantas dualidades, somente a língua parece suscetível duma
definição autônoma e fornece um ponto de apoio satisfatório para o espírito.

Nenhum comentário:
Postar um comentário