sexta-feira, 22 de abril de 2016

LÍNGUÍSTICA, LINGUAGEM E GRAMÁTICA: FERDINAND MONGIN DE SAUSSURE E OS SEUS DESENVOLVIMENTOS DENTRO DO ÂMBITO SÓCIO-ESCOLAR PRÉ E PÓS UNIVERSITARIAMENTE



Marcos da Silva Ramos[1]

INTRODUÇÃO

Este Artigo tem como objetivo discutir sobre a equiparação evolutiva originante entre a Ciência Linguística e a Língua Portuguesa, dentro do âmbito da Norma padrão-culta, fazendo com que o desenvolvimento do entendimento, aboque dentro dos contextos desde o ensino pré-universitário até o pós-universitário, aonde se pauta na concepção de linguagem (linguística) como forma de interação e sua relação com o ensino gramatical em sala de aula. Procura entrelaçar a gramática à linguística nessa perspectiva porque se crê ser essencial para que o ensino de língua aconteça de forma dinâmica e produtiva, crendo-se que, pela possibilidade do desenvolvimento das habilidades de leitura, de produção e de análise linguística de texto, veem-se proficientes e capazes de ampliarem a capacidade comunicativa. Finalmente, corroborar-se-á com a busca pelo desenvolvimento prático que venha possibilitar a abordagem tanto em sala de aula e principalmente pelas habilidades linguísticas por meio da prática gramatical.

 

I OLUCUBRAÇÃO GERAL: PARÂMETROS DESENVOLVIDOS PRÁTICOS



O homem procura dominar o mundo em que vive. Uma forma de ele ter esse domínio é o conhecimento. Esse é um dos motivos pelos quais ele procura explicar tudo o que existe.

A Linguagem[2] é uma dessas coisas. Ao procurar explicar a linguagem, o homem está procurando explicar algo que lhe é próprio e que é parte necessária de seu mundo e da sua convivência com os outros seres humanos.

Por que falamos? Para que falamos? Como falamos? O que são as palavras? O que elas produzem? Essas questões tocam diretamente o homem, e ele tem procurado dar-lhes uma resposta.

De posse desse saber sobre a Linguagem, o homem tenta domesticar os seus poderes e trazê-los para si. Mas, será que ele consegue?

Entende-se que a Linguagem é a capacidade humana para se compreender e se usar um sistema complexo e dinâmico de símbolos convencionados, usado em modalidades diversas para comunicar e pensar. Manifesta-se em todas as atividades sociais e culturais e constituindo a base da transmissão cultural, dos sistemas de valores e das tradições que caracterizam a sociedade humana. É uma capacidade natural que não necessita de justificação. Ela está de tal modo ligado à experiência do homem que é impossível imaginar a vida sem ela, uma vez que constitui um instrumento essencial para aceder aos pensamentos e conhecimentos. Pressupõe um sistema codificado, que, quando está enraizado, e é próprio de uma determinada comunidade, se traduz numa Língua, ou seja: gramaticalmente entrelaçado.

 

II - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA


2.1 Concepção[ões] de língua[3][4]



As reflexões produzidas nos últimos anos sobre Língua é a de que a mesma é a concepção de uma das formas de manifestação da Linguagem[5], e como um fenômeno de interação social, envolve, segundo BAKHTIN (1995, p.113) “a situação social mais imediata e o meio social mais amplo”, o que determina o caráter enunciativo da língua e da linguagem. Reconhecer o caráter enunciativo da língua e da linguagem quer dizer que o deslocamento de uma visão de sentido imediato ao enunciado linguístico, como algo acabado, para uma visão de sentido determinado pelas suas condições de produção chegam a incluir, segundo PCNEM (2002, p. 143) “o contexto, os interlocutores, gêneros discursivos, recursos utilizados pelos interlocutores para afirmar o dito/escrito, os significados sociais, a função social, os valores e o ponto de vista determinam formas de dizer/escrever. As paixões escondidas nas palavras, às relações de autoridade, o dialogismo entre texto e o diálogo fazem o cenário no qual a língua assume o papel principal”.

            Em outras palavras, “trazer à tona o contexto de produção, os recursos utilizados pelos interlocutores, os valores, o ponto de vista e as relações de autoridade, como determinantes das formas de dizer/escrever, significa estabelecer relação estreita entre mecanismos enunciativos constitutivos da língua e da linguagem – dêixis, modalização, polissemia e duplo sentido, polifonia e heterogeneidade, implícitos, entre outros -, e as questões de ideologia identidade e poder” (Orientações Curriculares para o Ensino Médio – (OCEM, 2006, p. 92-110)).

 

Grosso modo, língua[6] é um conjunto de valores e crenças sócio-culturais, construídas nas práticas de linguagem.



2.2 Concepção[ões] de linguagem



A linguagem é entendida primeiramente como expressão do pensamento. A expressão se constrói no interior da mente, sendo sua exteriorização apenas uma tradução. Pode ser dito então que a enunciação é um ato monológico individual, não afetado pelo outro nem pelas circunstâncias que constituem a situação social em que a situação acontece. Presuma-se então, que existem regras a serem seguidas para a organização lógica do pensamento, e, consequentemente, da linguagem.

Uma segunda concepção vê a linguagem como instrumento de comunicação, como meio objetivo para a comunicação. Segundo NEDER, (1992, p. 38) “o sistema linguístico é percebido como um fato objetivo externo à consequência individual e independente desta. A língua opõe-se ao indivíduo enquanto norma indestrutível, peremptória, que o indivíduo só pode aceitar como tal”.

            Essa concepção levou ao estudo da língua enquanto código virtual; que não possa se considerar que os interlocutores e a situação de uso como determinante das unidades e regras que constituem a língua, isto é, afastou o indivíduo falante do processo de produção, do qual é social e histórico na língua. “Essa é uma visão monológica e imanente da língua que a estuda segundo uma perspectiva formalista – que chega a limitar esse estudo ao funcionamento interno da língua – e que a chega a separar o homem no seu contexto social, concepção esta representada pelos estudos linguísticos realizados pelo estruturalismo (a partir de Saussure) e pelo transformacionalismo (a partir de Chomsky)” (NEDER, 1992, p. 41, que adota ideias de Frigotto, 1990, p. 20).

            A terceira concepção vê a linguagem como a forma ou processo de interação. Nessa concepção, vê-se que o indivíduo não somente traduz e exterioriza um pensamento, ou transmite informações a outrem, mas sim realiza ações, agir, atuar sobre o interlocutor. A linguagem é um lugar de interação humana e comunicativa pela produção de efeitos de sentido entre interlocutores, em uma dada situação de comunicação e em um contexto sócio-histórico e ideológico. É como diz Neder (1992, pp. 42 e 43) citando Baktin (1986, p. 123): 


“a verdadeira substância da linguagem não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas, nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada pela enunciação ou enunciações (cf. nota 7). A interação verbal constitui, assim, a realidade fundamental da linguagem”.



            Dessa forma o diálogo em sentido amplo é que caracteriza a linguagem. Essa concepção é representada por todas as correntes de estudo da língua que podem ser reunidas sob o rótulo de linguística da enunciação; certamente que aqui estariam inclusas as correntes teóricas tais como a da Linguística Textual, a Teoria do Discurso, a Análise do Discurso, a Análise da Conversação, a Semântica argumentativa e todos os estudos de algumas formas ligadas ao pragmatismo.

Em suma, a linguagem é a capacidade humana para compreender e usar um sistema complexo e dinâmico de símbolos convencionados, usado em modalidades diversas para comunicar e pensar. Manifesta-se em todas as atividades sociais e culturais, constituindo a base da transmissão cultural, dos sistemas de valores e das tradições que caracterizam a sociedade humana. É uma capacidade natural que não carece de justificação. Está de tal modo ligada à experiência do homem que é impossível imaginar a vida sem ela, uma vez que constitui um instrumento essencial para aceder aos pensamentos e conhecimentos. Pressupõe um sistema codificado, que quando está enraizado e é próprio de uma determinada comunidade, se traduz numa Língua.



2.3 Concepção[ões] de gramática



A concepção de gramática é concebida como um manual com regras de bom uso da língua a serem seguidas por aqueles que querem se expressar adequadamente; ela é normalmente rotulada de gramática normativa.

A gramática normativa, que é aquela em quem se estuda apenas os fatos da língua padrão, da norma culta de uma língua, norma essa que se tornou oficial. Ela se baseia geralmente mais nos fatos da língua escrita e dá pouca importância à variedade oral da norma culta, que é vista, conscientemente ou não, como idêntica à escrita. Ao lado da descrição da norma ou variedade culta da língua (análise de estruturas, uma classificação de formas morfológicas e léxicas), a gramática normativa apresenta e dita normas de bem falar e escrever, normas para a correta utilização oral e escrita do idioma, prescrevendo o que se deve: é o conjunto sistemático de normas para bem falar e escrever, estabelecidas pelos especialistas, com base no uso da língua, consagrado pelos bons escritores. Dizer que alguém ‘sabe gramática’ significa dizer que esse alguém conhece essas normas e as domina tanto nacionalmente quanto operacionalmente.

Dessa maneira, gramatical aqui seria aquilo que obedece, que segue as normas de bom uso da língua; configurando o falar e o escrever bem.

Nesse primeiro sentido, pode ser dito que a língua é só a variedade dita padrão e deve ser seguida por todos os cidadãos falantes dessa língua para não contribuir com a degeneração da língua de seu país. A gramática só trata da variedade de língua que se considerou como a norma culta, fazendo uma descrição dessa variedade e considerando erro tudo o que não está de acordo com o que é usado nessa variedade da língua. Em poucas palavras: tudo o que foge a esse padrão é “errado” (agramatical, ou melhor, dizendo, não gramatical), e o que atende a esses padrões é “certo” (gramatical).

As normas de bom uso da língua são baseadas no uso da língua que são baseadas no uso consagrado pelos bons escritores e, por tanto, ignoram as características próprias da língua oral.

Portanto, estão embutidos nessa concepção de gramática vários modos de perceber e definir a chamada norma culta que mobilizam argumentos de diferentes ordens para incluir na norma culta ou excluir dela formas e usos e, assim, fundamentar e exercer seu papel prescritivo. Os argumentos são, sobretudo, de natureza: estética, elitista ou aristocrática, política, comunicacional e histórica:

Estética: as formas e usos são incluídos ou excluídos da norma culta por critérios tais como elegância, colorido, beleza, finura, expressividade, eufonia, harmonia; devendo-se evitar vícios tais quais a cacofonia, a colisão, o eco e o pleonasmo vicioso;

Elitista ou aristocrática: aqui o critério é a contraposição do uso da língua que é feito pela classe de prestígio ao uso das classes ditas populares. Quando as gramáticas registram que certos usos são da linguagem popular, mas não como um registro de diferenças objetivas entre variedades, mas como uma condenação.

Política: aqui os critérios são basicamente o purismo e a vernaculidade. Há a pretensão e a necessidade de excluir da língua tudo o que não seja de origem grega, latina ou vinda de épocas remotas da língua.

Comunicacional: nesse caso os critérios se referem ao efeito comunicacional, à facilidade de compreensão.

Histórica: com frequência, o critério para excluir formas e usos de norma culta é a tradição.

Secundariamente o entendimento sobre gramática é a que tem sido chamada de gramática descritiva, ou seja, faz uma descrição da estrutura e funcionamento da língua, de sua forma e função. A gramática seria então “um conjunto de regras que o cientista encontra nos dados que analisa, à luz de determinada teoria e método”. Essas regras seriam as “utilizadas pelos falantes na construção real de enunciados” Segundo NEDER (1999, p. 49) citando Franchi (1991) “é um sistema de noções mediante as quais se descrevem os fatos de uma língua, permitindo associar a cada expressão dessa língua uma descrição estrutural e estabelecer suas regras de uso, de modo a separar o que é gramatical do que não é gramatical”.

Gramatical é considerado como tudo que atende às regras de funcionamento da língua de acordo com determinada variedade linguística. O critério é linguístico e objetivo.

A terceira concepção de gramática é a que se refere na direção em que, se considerando a língua como um conjunto de variedades utilizadas por uma sociedade de acordo com o exigido pela situação de interação comunicativa em que o usuário da língua está engajado, percebe a gramática como o conjunto das regras que o falante de fato aprendeu e das quais lança mão ao falar: Gramática corresponde ao saber linguístico que o falante de uma língua desenvolve dentro de certos limites impostos pela sua própria dotação genética humana, em condições apropriadas de natureza social e antropológica.

 

III DE Ferdinand Mongin de Saussure ATÉ A GRAMÁTICA NORMATIVA: EM BUSCA DE REGRAS E DEFINIÇÕES



3.1 Influências das ideias de Saussure e da Gramática



Tendo em vista que o princípio que rege a filosofia da linguagem é o estatuto que une a palavra até a coisa promulgada, pretende-se desde a tanto, relacionar os princípios de Linguística Geral postulados por Saussure com as concepções da Gramática Normativa[7], levantando os pontos em comum e as divergências dessa teoria linguística com a ciência gramatical. Sabe-se que existe uma ambiguidade da linguagem e a inadequação dos sistemas lógicos disponíveis e, as consequências que isso traz, tanto diante do ensino de língua quanto diante da postura que se terá diante de tantas contradições falaciosas; posto que a relação entre palavra e coisa foi muito estudada por diferentes estudiosos em diferentes épocas. Há muitos estudos a respeito desse enfoque, alguns mais conhecidos, outros menos. Em suma: o que se chega a ser senso comum é que essa relação se dá arbitrariamente. Essa arbitrariedade permite que a linguagem seja passível de equívocos.



3.2 Desenvolvimento do trabalho para Saussure



O trabalho de Saussure abordava a relação “nome” e “coisa” atribuindo-lhe uma nomenclatura inicial de imagem acústica e conceito que mais tarde foi substituída por “significado” e “significante”, respectivamente, cuja união recebe o nome de signo. Além disso, Saussure afirmou que essa relação entre significado e significante chegava a ser arbitrária, visto que não existia um vínculo natural entre a idéia e a sequência de sons. No que se segue, Saussure (2006, pp. 81-82) argumenta sua afirmação comparando línguas diferentes afirmando que “assim como a idéia de ‘mar’ não está ligada por relação alguma interior à sequência de sons m-a-r que lhe serve de significante; poderia ser representada igualmente bem por outra sequência, não importa qual; como prova, temos as diferenças entre as línguas e a própria existência de línguas diferentes: o significado da palavra francesa boeuf (‘boi’) tem por significante b-ö-f de um lado da fronteira franco-germânica, e o-k-s (Ochs) do outro”.

Saussure sugeria que os termos “conceito” e “imagem acústica” fossem substituídos por significado e significante. O fato é que, por trás de uma palavra sempre existirá um conceito, mesmo que tal objeto seja abstrato. Nesse caso, a gramática deveria eliminar o sujeito indeterminado, os artigos indefinidos, pronomes indefinidos, etc. No entanto, a linguagem, como um todo, é ambígua, mas a gramática admite essa possibilidade. De acordo com Rodolfo Ilari (1985), a gramática tradicional apresenta vários problemas e muitas incoerências. Gramáticos tradicionalistas tais quais Evanildo Bechara, ao tratar do gênero do substantivo, via de exemplo, direciona para a inexistência de uma justificativa para o uso do gênero do substantivo. A essa falta de justificativa, ele mesmo a chama de “inconsistência do gênero gramatical”. Segundo o próprio gramático, a distinção do gênero nos substantivos não apresenta fundamentos racionais, exceto a tradição fixada pela norma mesma. Tal afirmação parece ser baseada nos princípios estabelecidos por Saussure, onde ele diz que a língua é um sistema de signos, e esses signos, por sua vez, são arbitrários, ou seja, não existe uma relação ideológica entre significante e significado. Por ser apresentada essa característica, é necessário que um determinado grupo adote uma convenção. Porém, essa convenção se dá inconscientemente. Os gramáticos são praticamente unânimes em chegarem a contestar essa convenção e, assim como Saussure (2005, p. 133), reforçam a sua afirmação comparando línguas diferentes “assim é para nós o sol é masculino e para os alemães é feminino “die Sonne”, a lua é feminino e para eles masculino “der Mond; enquanto o português mulher é feminino, em alemão é neutro “das Weib”. Sal e leite são masculinos em português e femininos em espanhol: “la sal e la leche”. Sangue é masculino em português e francês e feminino em espanhol: “le sang (fr.) e “la sangre (esp.)”.

Além disso, ele cita a mudança de gênero como consequência dessa arbitrariedade: Na variedade temporal da língua, do português antigo ao contemporâneo, muitos substantivos passaram a ter gêneros diferentes, alguns sem deixar vestígios (...). (ibid.).

Podemos remeter essa afirmação ao fenômeno que Saussure chama de Diacronia. Trata-se de um fenômeno Linguístico de caráter acidental e particular que ocorre em todas as línguas sem poder ser evitado nem previsto. Esse fenômeno terá como resultado a mutabilidade do signo, o qual está subjugado à ação do tempo e da massa falante. O ponto em que Saussure e a Gramática aparentemente divirjam é que, Saussure, enquanto linguista e fundador da Linguística, afirmou que não é possível estabelecer regras em linguística, segundo suas próprias palavras: “falar de leis em Linguística Geral é querer abraçar um fantasma”; mas tal afirmação se deve ao fato de a língua ser uma convenção, e, sendo assim, ela é exatamente algo que abranja uma totalização que chegue a tratar de uma convenção que seja útil e necessariamente atrelada com a gramática e que prescreva normas, evitando que os falantes se distanciem do padrão e permitindo que a comunicação se processe. O fato de Saussure falar que não existiam leis em Linguística Geral, não chega a trazer a interpretação de que exista uma sobreposição concernente ao fato de existir uma gramática para cada língua. Ao fazer tal afirmação, Saussure está se baseando nos aspectos convencionais que todas as línguas estão subjugadas, e é por esse mesmo motivo que se deve a importância de uma gramática normacional.

É senso comum entre os linguistas mais famigerados que as gramáticas não conseguem dar conta de todos os fatos linguísticos, debalde, qual seria a intenção da gramática em levantar essas questões que estão fora do âmbito da Gramática Tradicional/Padrão/Normativa em si mesma? Seria mostrar aos professores que ensinar língua não se restringe somente à gramática? Essa é uma questão que cabe somente à própria Gramática Paradigmática responder.

Citando-se Neves (2002), ele chegou a considerar que “seria um equívoco por parte dos professores, eles mesmos chegarem a crer que apenas a leitura dos manuais de gramática garantiria um bom desempenho linguístico; todavia, não se pode conceber o ensino da língua só como ensino de gramática”.

Ainda, segundo uma pesquisa realizada por Neves (2002, p. 239) com cento e setenta (170) professores de Língua Portuguesa de 5ª a 8ª série na passada década de noventa (1990), cem por cento (100%) dos entrevistados afirmaram que ensinavam gramática. Além disso, esses professores acreditam que esse tipo de atitude, “não servia para nada”. Com base nos resultados encontrados, ela explicita a seguinte questão: se a finalidade do ensino da gramática é levar a ‘escrever melhor’, se a gramática contemplada é um simples jogo de rotulação de classes e de funções sintáticas, realmente se tem de pôr em questão a validade da existência de uma atividade de ensino de gramática nas escolas.

O fato é que, mesmo sabendo que ensinar língua não se restringe somente ao ensino da gramática, e que a língua não se delimita somente à norma culta e escrita, os professores empregam essa prática porque, segundo Moura Neves ainda não existe, então, uma receita de como dar aula de português, mas existe a possibilidade de achar um meio através de questionamentos, pela discussão, pela recusa de receitas prontas e consideradas definitivas. A gramática não consegue “ensinar tudo”, conquanto, a tentativa de se inserir a linguística no ensino fundamental, modelarmente mencionando, vemos que isso se tornou frustrador, segundo Neves (2002, pp. 255 e 256) “houve um tempo em que o deslumbradamente se acreditou que as teorias desenvolvidas na ciência linguística substituíram a mal fadada e mal falada gramática tradicional, nas escolas de ensino médio (…) felizmente parece que já se desistiu”.

Pode-se, dessa forma, atribuir a razão desse “fracasso” à maneira como a Linguística foi inserida no curso de Letras por si e em si mesmo. Tudo o que se tinha acumulado de informações e pesquisa foi “despejado (inserido)” dentro do currículo de Letras. Esse atropelamento de dados contribuiu para que as diferenças fossem frequentemente negligenciadas.

Consequentemente a aplicação da Linguística no ensino médio também foi um fracasso, pois o professor universitário não estava (e não está) preparado para relacionar a linguística com o ensino de língua portuguesa. Esse confuso entendimento deve-se ao fato de Linguística e Língua Portuguesa parecerem aos professores que não tem nada que se tenha a ver uma coisa com a outra, implicando-se que devido a essa segmentação de disciplinas, quando, na verdade, a Linguística mesma, tem como função fornecer instrumentos necessários para o ensino de língua portuguesa, no caso. Agora, outro fator que possa ter contribuído para esse fracasso, é essa tradição de se transmitir conhecimento. A prática do ensino da gramática tem como função fixar a norma culta, enquanto a teoria linguística tenta explicar o funcionamento da língua, tanto oral quanto escritamente.

Se a gramática é contraditória e limitada, em determinado ponto de vista da mesma, então esse passa a ser um dos poucos instrumentos que o professor de português acredita dominar, se for assim mesmo. Então: qual seria a causa dessa limitação e dependência do professor em relação à gramática? Em contrapartida: para que servem as aulas de Linguística ensinadas na Universidade? Será que há necessidade de se ficar quatro anos na universidade assistindo as aulas de Linguística se quando sairmos de lá iremos ensinar somente a gramática? Talvez a pergunta mais adequada seria feita por Neves (2002, p. 270): “(...) o professor de português recebe na universidade uma formação necessária que lhe permita compreender - com todas as suas consequências - o que é língua em funcionamento, e, a partir daí, que lhe permita saber o que é ensinar a língua materna para os alunos que lhe são entregues?”

Só será possível responder qual a postura que o professor deve assumir diante das “contradições” da gramática no momento em que ele aprender a questioná-la, e esse é um dos papéis que cabe à responsável pela sua formação ensinar, a universidade.

 

CONCLUSÃO



Pelo que foi possível entender via Gramática Normativa, há essa possibilidade de se estudar língua, ensinando-se Linguística[8] e Gramática ao mesmo tempo. O número esmagador de gramáticos questiona a própria gramática, mesmo eles sendo o que são. Isso nada menos prova que a gramática é muito limitada, e é imprescindível a sua relação com a Linguística. Esta questão ventilada e direcionada para os gramáticos tem fundamentação teórica em Saussure, o que atesta a influência dos estudos Linguísticos sobre a Gramática. Nem mesmo as pesquisas realizadas pela Linguística Aplicada conseguiram achar uma receita de como dar aula de português. Sumariadamente, uma das constatações dessas pesquisas é a de que a transmissão de conhecimento não é o caminho mais adequado para ensinar língua, tanto pré quanto pós universitariamente, mesmo que não existem propostas sobre essa crítica. O que acontece na realidade é que o professor de português não está preparado para questionar a gramática, aceitando, assim, inviolavelmente, a sua dependência forçada.


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[1] Aluno em regime especial pelo Programa de Pós Graduação em Linguística (PROLING), pelo Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pagante da Disciplina Princípios em Sociolinguística, ministrada pelo Professor Rubens M. Lucena.   

[2] A linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro. Finalmente: a cada instante, a linguagem implica ao mesmo tem­po um sistema estabelecido e uma evolução: a cada instante, ela é uma instituição atual e um produto do passado. Parece fácil, à primeira vista, distinguir entre esses sistemas e sua his­tória, entre aquilo que ele é e o que foi; na realidade, a relação que une ambas as coisas é tão íntima que se faz difícil sepa­rá-las. Seria a questão mais simples se se considerasse o fenô­meno linguístico em suas origens; se, por exemplo, começássemos por estudar a linguagem das crianças? Não, pois é uma idéia bastante falsa crer que em matéria de linguagem o problema das origens difira do das condições permanentes; não se sairá mais do círculo vicioso, então.

[3] O con­ceito de lín­gua varia muito segundo a cor­rente teó­rica que o pro­fesse. AbaurrePon­tara (2006, p. 3) enten­dem a lín­gua como um “sis­tema de repre­sen­ta­ção soci­al­mente cons­truído, cons­ti­tuído de sig­nos linguísticos”.
Observe-se aqui o cará­ter social da lín­gua, uma vez que só existe medi­ante esta nego­ci­a­ção entre seus falan­tes. Com­ple­men­ta­mos o con­ceito das auto­ras com o de Mar­cuschi (2005, p. 31), para quem a língua é “um con­junto de prá­ti­cas soci­ais e cog­ni­ti­vas his­to­ri­ca­mente situadas.”
Sendo assim, não pode­mos enten­der a lín­gua como uma estru­tura autô­noma, alheia à rea­li­dade dos falan­tes e imutável.

[4] Ainda pode ser dito que a palavra língua tem várias acepções. Por um lado, refere-se ao órgão muscular que se situa na cavidade bucal dos animais vertebrados e que permite degustar, deglutir, mastigar e articular os sons que lhes são próprios.
Trata-se do órgão mais forte do corpo humano, com uma musculatura de origem hipobranquial como a epiglote. Tem uma face superior, também conhecida como o dorso da língua, a qual apresenta a forma de V (o sulco terminal, aberto para a frente e formado pelas papilas caliciformes). Na face inferior (a parte ventral), encontra-se o freio (ou o filete), que limita os movimentos da língua e que é bastante resistente.
Por outro lado, o conceito de língua pode fazer referência ao idioma, que é um sistema de comunicação verbal ou gestual próprio de uma comunidade humana.
O termo língua natural permite referir-se a uma variedade linguística ou forma de linguagem humana com fins comunicativos que é dotado de uma sintaxe e que é suposto obedecer aos princípios da economia e da otimalidade. Embora as línguas naturais usem símbolos sonoros, também podem usar sinais.
No que diz respeito à língua materna, igualmente conhecida como língua popular, idioma materno, língua nativa ou primeira língua, é o primeiro idioma que aprende um ser humano.
No caso das aves, dá-se o nome de língua à hipofaringe. Também se refere à parte da armadura bucal de alguns insetos. Finalmente, a língua (ou língua-de-vaca) pode designar a solha que é típica nas costas marítimas do Sul de Portugal.

[5] Abaurre e Pon­tara defi­nem muito bem lin­gua­gem como: “uma ati­vi­dade humana que, nas repre­sen­ta­ções de mundo que cons­trói, revela aspec­tos his­tó­ri­cos, soci­ais e cul­tu­rais. É por meio da lin­gua­gem que o ser humano orga­niza e dá forma às suas experiências.” Se enten­der­mos a pro­fun­di­dade deste con­ceito, enten­de­re­mos que não pode­mos redu­zir a lin­gua­gem a um meio de comu­ni­ca­ção, como nor­mal­mente se faz, já que é a par­tir dela que cons­truí­mos nossa memó­ria e con­se­quen­te­mente nossa His­tó­ria. Sem lin­gua­gem não exis­ti­ria a civi­li­za­ção como conhecemos.

[6] Ela jamais se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessá­rias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. Tomada em seu todo, todavia, a linguagem é multiforme e heteróclita; o cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, ela pertence, além disso, ao domínio individual e ao domínio social; não se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe inferir sobre sua unidade. A língua, ao contrário, é um todo por si e um princípio de classificação. Desde que lhe demos o primeiro lugar entre os fatos da linguagem, introduzimos uma ordem natural num con­junto que não se presta a nenhuma outra classificação. A esse princípio de classificação poder-se-ia objetar que o exercício da linguagem repousa numa faculdade que nos é dada pela Natureza, ao passo que a língua constitui algo adquirido e convencional, que deveria subordinar-se ao instinto natural em vez de adiantar-se a ele. Vocais; de certo modo, já nos haviam sido impostas pela Na­tureza. No ponto essencial, porém, o linguista norte-americano nos parece ter razão: a língua é uma convenção e a natureza do signo convencional é indiferente. A questão do aparelho vocal se revela, pois, secundária no problema da linguagem. Certa definição do que se chama de linguagem articulada poderia confirmar esta idéia. Em latim, articulus significa “membro, parte, subdivisão numa série de coisas”; em maté­ria de linguagem, a articulação pode designar não só a divisão da cadeia falada em sílabas, como a subdivisão da cadeia de significações em unidades significativas; é neste sentido que se diz em alemão gegliederte Sprache. Apegando-se a esta segun­da definição, poder-se-ia dizer que não é a linguagem que é natural ao homem, mas a faculdade de constituir uma língua vale dizer: um sistema de signos distintos correspondentes a ideias distintas.
Descobriu-se que a faculdade de falar se localiza na terceira circunvolução frontal esquerda; também nisso se apoia­ram alguns para atribuir à linguagem um caráter natural. Mas sabe-se que essa localização foi comprovada por tudo quanto se relaciona com a linguagem, inclusive a escrita, e essas verifica­ções, unidas às observações feitas sobre as diversas formas de afasia por lesão desses centros de localização, parecem indicar: 1. que as perturbações diversas da linguagem oral estão enca­deadas de muitos modos às da linguagem escrita; 2. que, em todos os casos de afasia ou de agrafia, é atingida menos a facul­dade de proferir estes ou aqueles sons ou de traçar estes ou aqueles signos que a de evocar por um instrumento, seja qual for, os signos duma linguagem regular. Tudo isso nos leva a crer que, acima desses diversos órgãos, existe uma faculdade mais geral, a que comanda os signos e que seria a faculdade lin­guística por excelência. E somos assim conduzidos à mesma conclusão de antes. Para atribuir à língua o primeiro lugar no estudo da lin­guagem, pode-se, enfim, fazer valer o argumento de que a faculdade natural ou não de articular palavras não se exerce senão com ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade; não é, então, ilusório dizer que é a língua que faz a unidade da linguagem. Eis o que pode se responder: inicialmente, não está provado que a função da lingua­gem, tal como ela se manifesta quando falamos, seja inteira­mente natural, isto é: que nosso aparelho vocal tenha sido feito para falar, assim como nossas pernas para andar. Os lin­guístas estão longe de concordar nesse ponto.

[7] Sabe­mos que todas as lín­guas variam segundo dife­ren­tes cri­té­rios (o lugar onde são fala­das, a época, o grupo que as uti­liza etc.). No entanto, todas as lín­guas — inde­pen­dente do grau de evo­lu­ção tec­no­ló­gica que tenham — pos­suem uma vari­e­dade pres­ti­gi­ada que se uti­liza para ter acesso a deter­mi­na­das ins­tân­cias de poder. É o que cha­ma­mos de norma culta, norma padrão ou vari­e­dade prestigiada.
Ao con­trá­rio do que possa pare­cer, a norma culta não cor­res­ponde neces­sa­ri­a­mente ao pro­fes­sado nas gra­má­ti­cas nor­ma­ti­vas: é muito mais um amál­gama de nego­ci­a­ções em torno a for­mas lin­guís­ti­cas que repre­sen­tam o lin­gua­jar de uma deter­mi­nada elite sócio-econômica que impõe sua vari­e­dade como o padrão. Cien­ti­fi­ca­mente não se pode falar de uma vari­e­dade “melhor” ou “pior” do que a outra. A norma culta existe por conta de pres­sões soci­ais que exi­gem o emprego de uma deter­mi­nada vari­e­dade para deter­mi­na­das inte­ra­ções na soci­e­dade, mas seria qual­quer outra, caso os gru­pos soci­ais domi­nan­tes fos­sem outros. Por exem­plo, pode­mos notar certo “padrão” entre os jor­na­lis­tas da Globo, nor­mal­mente ali­nhado às vari­an­tes do Sudeste. Isso se dá por certa impo­si­ção velada da empresa por repre­sen­tar o padrão da região eco­no­mi­ca­mente mais pode­rosa do país. Se o Nor­deste esti­vesse nesta posi­ção, pro­va­vel­mente o padrão “glo­bês” seria outro.
É de se espe­rar, por outro lado, de um can­di­dato a um emprego que requeira o trato com um público exi­gente que domine o padrão, e cabe à escola pos­si­bi­li­tar aos cida­dãos essa fle­xi­bi­li­dade para tra­fe­gar entre as vari­e­da­­des que cada um pos­sui como herança de sua cri­a­ção, de suas inte­ra­ções sociais, e a vari­e­dade padrão.


[8] Qual foi o objeto, ao mesmo tempo integral e concreto da Linguística?

Outras ciências trabalham com objetos dados propriamente e que se podem considerar, em seguida, de vários pontos de vista; em nosso campo, nada de semelhante ocorre. Alguém pronuncia a palavra nu: um observador superficial será tentado a ver nela um objeto linguístico concreto; um exame mais atento, porem, nos levara a encontrar no caso, uma apos outra, três ou quatro coisas perfeitamente diferentes, conforme a maneira pela qual consideramos a palavra: como som, como expressão duma ideia, Como correspondente ao latim nudum etc.


Bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista, diríamos que e o ponto de vista que cria o objeto; aliás, nada nos diz de antemão que uma dessas maneiras de considerar o fato em questão seja anterior ou superior às outras.

Alem disso, seja qual for a que se adote, o fenômeno linguístico apresenta perpetuamente duas faces que se correspondem e das quais uma não vale senão pela outra.

Mas admitamos que o som seja uma coisa simples: é ele quem faz a linguagem? Não, não passa de instrumento do pensamento e não existe por si mesmo. Surge daí uma nova e temível correspondência: o som, unidade complexa acústico-vocal, forma por sua vez, com a idéia, uma unidade complexa, fisiológica e mental.  

E ainda mais:

Destarte, qualquer que seja o lado por que se aborda a ques­tão, em nenhuma parte se nos oferece integral o objeto da Linguís­tica. Sempre encontramos o dilema: ou nos aplicamos a um lado apenas de cada problema e nos arriscamos a não perceber as dualidades assinaladas acima, ou, se estudarmos a linguagem sob vários aspectos ao mesmo tempo, o objeto da Linguística nos aparecerá como um aglomerado confuso de coisas heterócli­tas, sem liame entre si. Quando se procede assim, abre-se a porta a várias ciências — Psicologia, Antropologia, Filologia etc. —, que separamos claramente da Lin­guística, mas que, por culpa de um método incorreto, poderiam reivindicar a linguagem como um de seus objetos.

Há, segundo nos parece, uma solução para todas essas dificuldades: é necessário colocar-se primeiramente no terreno da língua e tomá-la como norma de todas as outras manifestações da linguagem. De fato, entre tantas dualidades, somen­te a língua parece suscetível duma definição autônoma e for­nece um ponto de apoio satisfatório para o espírito.